Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Em relação ao Natal

por cem-noites, em 26.12.14

Desde criança que não me lembro de ter dois natais iguais. Uns melhor que outros mas também me lembro que foi nos menos bons que eu e o meu irmão organizávamos os melhores concertos e teatrinhos para animar os meus pais. O que ainda hoje me faz gostar do Natal é a nostalgia desses tempos em que havia a verdadeira excitação, o verdadeiro friozinho na barriga que se foi perdendo.

Mas nunca se apagaram as tradições desse dia. A minha mãe na cozinha, de avental, a fazer os doces enquanto eu punha a mesa. Na casa soava sempre o nosso cd preferido e cantávamos e dançávamos enquanto cada um se dedicava às suas tarefas. A refeição da consoada era sempre a mais tardia do ano e mesmo quando acabávamos de jantar perto das onze, lembro-me de achar que faltava uma eternidade para poder 'atacar' todos os presentes.

De todas as circunstâncias que a vida me apresentou, nomeadamente a separação dos meus pais, que foi talvez das mais marcantes, a maior delas todas foi a partida da minha avó. Acho que até dia 24 chegar não me tinha posto bem na angustia da situação. Andava distraída, mil e uma coisas para fazer e para estudar. A tradição este ano não se alterou, os doces, a mesa (com menos um lugar!), a música (mais baixa!) e a consoada (servida bem mais cedo!). E acresceu um vazio enorme. Todos os presentes que recebi acabei por desvaloriza-los drasticamente e em parte não me consigo sentir culpada. Tudo o que me faltava era a minha avó a beijar-me as bochechas gordinhas e rosadas, como ela me dizia, e a aquecer-me as mãos. 

Lembro-me de ter perto de cinco anos e de ter chorado muito por não ter recebido a boneca que desejava. No final era show off e ofereceram-ma para meu total deleite. Eu só queria que se tratasse de mais uma partida e que dissessem que também me vão oferecer a minha avó de volta. Não há bens materiais que paguem isso. Nenhuns. Nem nunca existirão. E o vazio que hoje sinto não mais será preenchido. 

Como costumo habitualmente fazer todos os anos, fui oferecer uma caixa de bolachinhas de manteiga à minha vizinha que mora duas casas acima de mim. Ela é muito idosa mas tem imensa genica. Vi as lágrimas nos olhos dela quando lhe entreguei as bolacha, um brilho de gratidão. Perguntei-lhe se ia para a filha, respondeu-me que este ano não lhe tinha dito nada. Que ia passar com os dois filhos que vivem com ela, ali. A tristeza na voz. Oitenta e sete anos. Que a filha não se arrependa. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 22:33


2 comentários

Imagem de perfil

De moon a 26.12.2014 às 23:25

ora, de nada!
é sempre muito bom :)
é tão triste pensar em quem passa não apenas esta época mas meses e meses longe da família e de quem gosta, nem consigo imaginar :/
beijinho xx
Imagem de perfil

De filipa. a 26.12.2014 às 23:52

a minha avó faleceu há dois anos, e lembro-me de ele ter falecido em julho e logo em dezembro, mês de nata, eu nem consoar consegui...ainda me sentei à mesa, mas logo me retirei e refugiei-me no quarto a chorar a noite inteira. ainda assim, sempre que vou ao cemiterio visitar a minha avo nao tenho vontade de chorar, sinto que ela está bem. e que os dois anos que antecederam a sua morte, foram de puro sofrimento...daí eu sentir que ela agora está bem, principalmente, pq está junto do meu avô.
e sim, tenho de concordar contigo, sem sabermos acabamos as duas no dia de hoje por escrever algo muito semelhante :)
um beijinho.

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor